grávida em trabalho de parto debruçada na bola de pilates e sendo apoiada por médica obstetra

Vacina do vírus sincicial respiratório na gravidez

Não coloco em causa a segurança nem a eficácia da nova vacina contra o VSR na gravidez. Com a administração da vacina, diminuiu-se a probabilidade de doença grave nos primeiros 180 dias de vida do bebé passando de 1,8% (sem vacina) para 0,5% (com vacina), e os efeitos secundários foram maioritariamente no local da injecção ou ligeiros. Cada internamento de um bebé tem um grande impacto em si mesmo e na sua família e compreendo o esforço para diminuir ao máximo estas infeções.

Mas… A vacina, segundo o portal de prescrição electrónica, custa 197,50€ euros e os recursos económicos do país e das famílias não são ilimitados.

Será que a relação custo-benefício é favorável a recomendar a vacina a todas as grávidas? Não sei. 

Será que todas as famílias têm capacidade financeira para a pagar? Sei que não.

Quando a mensagem que se espalha é “não fazes isto pelo teu filho?”, um marketing culpabilizador que é lamentavelmente utilizado em vários produtos ou serviços para bebés, não consigo deixar de ficar indignada e de pé atrás.

Os pais fazem tudo o que está ao seu alcance pelos filhos! Se eu disser a uma grávida que ela tem que amputar uma das suas pernas saudáveis em benefício do seu bebé, tenho a certeza que ela vai considerar fazê-lo. 

Se eu recomendar a vacina, sei que há pessoas que, nem que fiquem sem comer, vão pagar a vacina para seguir a minha recomendação.

E isso, para mim, é um problema. Não me sinto no direito de interferir tão diretamente nas finanças familiares quando ainda nem temos recomendações nacionais isentas, provenientes da DGS ou da SPOMMF, por exemplo.

Infelizmente, durante a minha formação como médica, tive pouca formação sobre gestão de recursos económicos ou avaliação de custo-benefício para cada intervenção. Fica a ideia que o nosso papel como médicos é fazermos recomendações apenas baseadas em estudos de eficácia. Pedimos exames, prescrevemos medicamentos e, na maioria das vezes, não fazemos a mínima ideia do custo associado para o utente ou para o SNS. Só que, infelizmente, nem vivemos num país rico nem lidamos exclusivamente com pessoas ricas, e a escassez financeira também tem impacto na saúde física e mental das famílias.

Sabiam que o colégio americano de ginecologia/obstetrícia (ACOG) apenas recomenda a vacinação do VSR, no hemisfério norte, às grávidas que entre setembro e janeiro tenham entre 32+0 e 36+6 semanas? A infecção pelo VSR costuma ser sazonal, como a gripe e, por isso, não acham vantajoso vacinar durante todo o ano.

Também apenas fazem a vacina depois das 32 semanas porque os estudos mostraram que a vacina pode aumentar o risco de parto prematuro, ainda que não tenha sido estatisticamente significativo.

Espero que em breve tenhamos recomendações nacionais e que, se realmente for útil em termos de saúde pública (que não faço ideia se é e espero que alguém capacitado faça uma avaliação séria sobre o assunto, sem pressões do marketing), a DGS deveria incluir no plano de vacinação gratuita. Ou então seguir o caminho da região autónoma da Madeira e dar medicação preventiva a todos os bebés depois de nascerem.

Sei que é controverso, mas acho que é bom refletirmos sobre várias perspectivas.

Qual a vossa? Deixem nos comentários deste post.

Referências:

Kampmann B, Madhi SA, Munjal I, et al. Bivalent Prefusion F Vaccine in Pregnancy to Prevent RSV Illness in Infants. N Engl J Med. 2023;388(16):1451-1464. doi:10.1056/NEJMoa2216480 

ACOG, Maternal Respiratory Syncytial Virus Vaccination, Practice Advisory,September 2023

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