Mariana Torres OB

Indução do parto com ocitocina

Ocasionalmente surge a necessidade de antecipar o parto por as desvantagens de continuar a gravidez superarem os riscos de uma indução do parto ou cesariana. Não existindo contraindicação para o parto vaginal, iniciam-se métodos (mecânicos ou medicamentosos) que provoquem contrações uterinas e modificação do colo do útero até se alcançar a fase ativa do trabalho de parto.

Um desses métodos farmacológicos é a ocitocina. Neste post falaremos do uso de ocitocina para induzir o parto e não da sua utilização para acelerar um parto que já iniciou espontaneamente nem o uso após o bebé nascer para prevenir a hemorragia pós-parto.

Apenas se costuma iniciar a indução pela ocitocina quando o colo do útero está bastante favorável, amolecido, com alguma dilatação e relativamente perto da fase ativa do trabalho de parto (índice de Bishop superior ou igual a 6).

Quando o colo não está favorável é benéfico usar um método de amadurecimento do colo antes de começar ocitocina (e algumas grávidas nem chegam a precisar de ocitocina).

Uma excepção é a presença de ruptura prematura de membranas (quando a bolsa rompe e não surgem contrações espontaneamente), em que a vantagem de usar prostaglandinas, mesmo em colos desfavoráveis, não está tão bem estabelecida.

Antes de começar a indução…

Antes de iniciar a indução deve ser feita uma revisão da história da gravidez, confirmando-se a idade gestacional, a posição e a estimativa de peso do bebé. Também é necessário realizar toque vaginal para avaliar qual o método mais indicado para as condições do colo naquele momento e cardiotocografia (CTG) para avaliar o bem-estar do bebé.

Na prática como acontece a indução com ocitocina?

A ocitocina é administrada por via endovenosa com uma bomba de infusão, ou seja, a grávida fica continuamente ligada ao soro que contém ocitocina, recebendo-o gota a gota, numa dose precisamente controlada e que vai sendo ajustada até se atingir a frequência de contrações desejada. Por esse facto, é dos métodos de indução que mais influenciam a liberdade de movimentos.

Durante a indução deve ser feita monitorização contínua dos batimentos cardíacos do bebé e da dinâmica uterina para se ajustar a dose de ocitocina. A semivida da ocitocina são 3-6minutos, fazendo com que o seu efeito diminua relativamente rápido após ser suspensa a administração.

Existem vários protocolos de administração de ocitocina (quer relativamente à dose inicial, intervalo entre aumentos e dose máxima), não estando estabelecido qual o melhor. Mas em todos se inicia com uma dose que é aumentada de x em x tempo até o trabalho de parto estar a evoluir normalmente.

Se foram usadas prostaglandinas previamente pode ser necessário aguardar algum tempo até se poder iniciar ocitocina de forma segura. Caso tenha sido usado balão (sonda de foley), a ocitocina pode ser iniciada antes ou depois da expulsão do balão.

E se existir um parto anterior por cesariana?

Ter uma cesariana anterior não é motivo para não se poder induzir o parto com ocitocina. Ainda que a indução com ocitocina pareça aumentar o risco de ruptura uterina (quando comparado com o trabalho de parto espontâneo), esse risco continua baixo – 1,1% (vs 0,4%).

Quais são os efeitos secundários do uso de ocitocina?

Alguns dos efeitos secundários são:

– contrações dolorosas, ainda que não seja evidente que a dor das contrações induzidas seja superior à das contrações espontâneas;

– taquissistolia (contractilidade uterina excessiva – durante 30 min uma média de >5 contrações em cada 10 min, que pode estar associada ou não a alterações dos batimentos cardíacos do bebé) – deve suspender-se ou diminuir a dose de ocitocina até se ter uma contractilidade normal;

– hiponatremia (diminuição da quantidade de sódio no sangue por retenção excessiva de água quando é administrada ocitocina em dose alta durante muito tempo);

– hipotensão (pouco comum durante a indução com bomba de infusão, em que a dose de ocitocina é baixa);

– ruptura uterina (mas, relembrando, mesmo numa grávida com cesariana anterior o risco de ruptura uterina com a administração de ocitocina é muito baixo).

Para finalizar…

Na prática é pouco comum a ocitocina ser usada como primeiro método de indução de parto por a maioria das induções serem iniciadas com colo não favorável e, por isso, começar-se a indução com prostaglandinas ou sonda de foley.

Referências:

Alfirevic Z, Kelly AJ, Dowswell T. Intravenous oxytocin alone for cervical ripening and induction of labour. Cochrane Database Syst Rev. 2009;2009(4):CD003246. Published 2009 Oct 7. doi:10.1002/14651858.CD003246.pub2

Alfirevic Z, Keeney E, Dowswell T, et al. Which method is best for the induction of labour? A systematic review, network meta-analysis and cost-effectiveness analysis. Health Technol Assess. 2016;20(65):1-584. doi:10.3310/hta20650

Budden A, Chen LJ, Henry A. High-dose versus low-dose oxytocin infusion regimens for induction of labour at term. Cochrane Database Syst Rev. 2014;2014(10):CD009701. Published 2014 Oct 9. doi:10.1002/14651858.CD009701.pub2

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ACOG Practice Bulletin No. 205: Vaginal Birth After Cesarean Delivery. Obstet Gynecol. 2019;133(2):e110-e127. doi:10.1097/AOG.0000000000003078

Landon MB, Hauth JC, Leveno KJ, et al. Maternal and perinatal outcomes associated with a trial of labor after prior cesarean delivery. N Engl J Med. 2004;351(25):2581-2589. doi:10.1056/NEJMoa040405

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